Tempo e Disponibilidade

Na atualidade, quantas vezes nos encontramos frente a uma criança que mostra algumas dificuldades, e que geralmente aparecem na cena escolar? E quantas vezes tendemos a exagerar a importância da dificuldade, tentando solucioná-la rapidamente, esperando que a criança se encaixe no que supomos o esperado, o normal, o melhor para ela?

Gostaria de retomar algumas notícias que circulam na internet. A primeira é um aplicativo para celulares que se chama “Cry Translator”, criada para que os pais possam distinguir os vários choros de seu bebê. Grava e analisa durante dez segundos o choro da criança e indica se é provocado por fome, sono, stress, mal-estar, irritação. Além disso, o aplicativo aconselha como acalmar o pequeno, levando em conta o que supostamente está acontecendo. Onde entra aí a escuta maternal, que com seu desejo e no espaço vazio de saber, arrisca uma interpretação?

A segunda notícia, publicada num jornal espanhol: “Especialistas advertem sobre o abuso de psicofármacos na idade infantil”. O consumo de drogas psicoativas aumentou de tal modo, que até para bebês tem se receitado. Inacreditável! “Mais de 15% de crianças entre 4 meses e 6 anos consomem antidepressivos, soníferos, estimulantes, antipsicóticos, por prescrição médica”, assinala o psiquiatra espanhol José Pedreira Massa, observando que de modo geral, esses medicamentos nem são indicados por psiquiatras infantis, mas por médicos generalistas, ou ministrados pelos próprios pais. Considero que existem vínculos entre essas duas notícias. Embora muitos pais lamentem que os bebês não venham acompanhados do manual de instrução, talvez nunca tenham imaginado que pudesse haver, e muito menos no formato de um aplicativo.

Ora, é o vínculo pais-bebê que possibilita a humanização da criança. Sem esse vínculo de um investimento afetivo, (desejos, fantasias, sonhos, medos, angústias, apostas simbólicas dos pais) é muito difícil que a cria se humanize. Por outro lado, para formar novas conexões neuronais o cérebro necessita das trocas amorosas. A empatia é um motor privilegiado que se requer de um adulto para com a criança. Um desejo parental endereçado à criança. É preciso tempo e disponibilidade de um adulto significativo para a criança, desde que ela vem ao mundo. Quando isso não acontece, seja porque o adulto está absorvido com suas próprias preocupações, ou pressionado por exigências externas, quando não há tempo ou disponibilidade, não se forma a rede de sustentação e então, a busca das sustentações mágicas parece ser preponderante. É assim que se prepara o terreno no qual a medicalização da infância encontra terra fértil.

ESTRATÉGIAS DO PROCESSO MEDICALIZADOR

O processo de medicalização se refere à transformação das dificuldades comuns da vida em enfermidades que necessitam ser tratadas com remédios. Esta não é uma crítica à medicina, mas às medicações como forma de abordar as diferenças inerentes ao humano como se fossem problemas médicos. Por exemplo, o mal-estar pré-menstrual passou a ser TPM; a timidez se transformou em fobia social; as crianças desatentas, sonhadoras, passaram a ser TDAH; (transtorno por déficit de atenção com ou sem hiperatividade); crianças birrentas e adolescentes rebeldes agora são TOD (Transtorno oposicionista desafiante). E para cada um há uma medicação disponível! Só que, introduzir a possibilidade da prevenção do risco, medicando, faz correr o risco de se ter filhos drogaditos, justamente tentando prevenir algo com a ingestão de metilfenidato.

Sem dúvida, a indústria farmacêutica está ativamente implicada na definição do que é uma doença e qual o modo de tratá-la, assim como na formação dos médicos através de congressos, cursos e publicações. Atualmente existe a intenção de se localizar as causas das ditas “doenças” no cérebro como produtor disso que não se encaixa nos padrões comportamentais. As neurociências vêm corroborar colocando o cérebro como regulador das relações do organismo com o ambiente.  Entretanto, não é possível desconhecer a plasticidade cerebral: é o encontro da criança com o adulto significativo (pais), numa estrutura afetiva, linguística, cultural, é o que faz o bebê se humanizar e produzir diferentes subjetividades.

Então, aquilo que os pais buscam na medicação para solucionar o problema que o filho apresenta, necessita, na realidade e principalmente: de desejo, de tempo e de disponibilidade para exercerem suas funções parentais…

Gisela Untoiglich é doutora em Psicologia, Universidade de Buenos Aires. Dados colhidos da plataformaicmi@comunicar.e.telefonica.net- Plataforma Internacional contra a Medicalização na Infância. Dezembro, 2017.

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