Sociedades do Rendimento

Byung Chul Han (2013), filósofo contemporâneo, coloca a ideia do sujeito do rendimento, como aquele que se pretende livre, mas que na realidade, acaba sendo um escravo de si mesmo. Observa que, em nosso tempo, a própria exploração resulta mais eficaz porque vem acompanhada de um sentimento de suposta liberdade.

Os celulares, sempre à mão, condensam o trabalho, sem pausa. As pessoas ficam aflitas quando estão “fora do alcance de cobertura”, tendo sempre uma urgência para resolver, uma “mensagem importantíssima” para responder, o que nos deixa permanentemente em conexão com o fora da gente, mas com pouca disponibilidade para nosso interior. Seja este interior a nossa subjetividade, ou com os nossos vínculos próximos. Estamos numa era de hipercomunicações, e grandes solidões… A auto-exploração não nos traz nada de novo, não nos transforma em revolucionários, mas em depressivos. Para incrementar a produtividade, tenta-se otimizar processos psíquicos e mentais, porque a pausa, a espera, o ritmo pessoal, tornaram-se inconvenientes que tem que ser resolvidos a qualquer preço. Aquele que hoje não se encaixa no sistema é medicado para que retorne rapidamente a fazer parte da cadeia produtiva e consumista. Isso habilita e promove o consumo de psicofármacos como um meio legitimado de dar o melhor de si.

Estamos tornando obsoleto o ato de esperar: assim como numa máquina, quando apertamos o botão de “pausa” ela para de funcionar. Mas nós humanos, é aí na pausa que começamos a funcionar, a refletir, a a repensar nossos pressupostos, a re-imaginar o que é possível, e, o mais importante: a nos reconectar com os valores que nos são mais caros. Ou seja, o fundamental é aquilo que fazemos durante a pausa.

Na sociedade de rendimento não há tempo a perder. Quando o dinheiro nos permite ter todos os recursos à mão, aparece o imperativo categórico de utilizá-los imediatamente. Os profissionais da saúde usam utilizam técnicas para medir, avaliar e resolver, etiquetando crianças a partir de condutas observáveis e perdendo de vista as causas que não estão aparentes. E grande parte das patologias pelas quais nos consultam se devem á fragilidades narcísicas e ao desamparo, típicos de nossa época. O profissional que leva em conta a complexidade de nossos tempos pode possibilitar oportunidades, na medida em que propicie encontros subjetivantes, localize a criança em sua alteridade e ajude a tecer redes de sustentação que sustentem a criança e seus pais.

Paciência não é apenas ausência de velocidade; é espaço para reflexão e pensamento. Tempo para criar conexões melhores e profundas, que não sejam apenas ráidas! (Thomas Friedmann).

Gisela Untoiglich -Doutora em Psicologia pela Universidade de Buenos Aires. Coordenadora do programa de atualização: “Problemáticas clínicas atuais na Infância”.

Nota Bibliográfica:

Artigo: “Aquilo que só necessita tempo e adultos em disponibilidade”- Plataforma Internacional contra a medicalização da infância.

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