Psicanálise e Infans?

Anos atrás testemunhamos o esforço para considerar a eficácia da Psicanálise com crianças. Hoje em dia, ainda nos vemos às voltas com o estranhamento frente às transmissões de psicanalistas que trabalham no campo do infans – aquele que não fala -, e dos que estão em seu entorno.

Esse encontro com a criança, com o Infantil, pode se produzir maciçamente traumático, seja para os pais, seja para profissionais que com eles atuam. Há sempre um efeito de sideração no encontro com o Real.

Freud reconhece que, certamente, o ato do nascimento imprime uma marca, mas questiona a generalização desse ato como um trauma. A isso Lacan contribui quando diz que “de trauma, não há outro: o homem nasce mal-entendido”. [1]

Nessa original conotação do termo, Lacan destina ao ser- falante: o mal-entendido, desde antes de nascer, no “balbucio dos seus ascendentes”, nos desejos parentais e familiares expressos ou, inconscientes. Paradoxalmente, dessa descontinuidade que se apresenta, dessa óbvia herança truncada, pois, a criança apresenta diferenças, ela pode traçar sua singularidade.

Estamos diante de tantas novas descobertas e recursos da medicina quanto à fertilização e à esterilidade, mas será que os envolvidos – tanto os pais quanto os profissionais – estão preparados para lidar com os aspectos psíquicos decorrentes e inerentes à defesa da vida a que se propõem?

As novas operações tecnológicas da ciência, talvez, sejam mais velozes do que a necessária elaboração de seus efeitos subjetivos, tendo-se em vista as freqüentes situações de sofrimento e desorganização psíquica, quando envolvem dificuldades referentes a crianças recém- nascidas, de risco, as que morrem, as prematuras, os bebês e…seus pais, antes, durante e depois do nascimento do filho.

Com a ética da Psicanálise apontando o singular, o um a um, o psicanalista nessa clínica faz intervenções – por vezes, pontuais – com o vigor do não sabido e do equívoco, pilares fundamentais de um saber vivo que se renova e não cessa de surpreender e causar novos investimentos. A Psicanálise não opera antes que as experiências ocorram, mas ela pode operar diante dos primeiros sinais emitidos das experiências dolorosas. Não é preciso esperar um sintoma gritar, se nossa escuta for sensível a um sussurro – que pode ser um radical silêncio – e abrir espaço para a palavra.

Dos efeitos dessa clínica decorre uma importante perspectiva de avanços, na teoria e na prática psicanalíticas.

Rosely Gazire Melgaço

[1] “O Mal-entendido”, texto de Lacan em “ Documentos para uma Escola”, publicados em Ornicar? (22-23), Paris, Editions du Seuil, 1981.

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