Precisando de Reforço Escolar

Temos observado há algum tempo que a vida das crianças na escola muitas vezes não tem sido fácil. Estamos vivendo um tempo de mudanças muito rápidas, em que a competição se acelera, cada vez mais incentivada pela cultura: tudo que se refere ao saber conceitual tem sido valorizado com prioridade.

Assim, quando a ênfase no conteúdo programático toma a frente da formação escolar como um todo, deixa-se de lado outras funções educativas que caberiam tanto à escola quanto aos pais.

O que se vê hoje? Hoje vemos muitas escolas apostando no escore, nas estatísticas de melhor desempenho. Só que na questão educativa – que é tão ampla – o foco excessivo no conteúdo tem se mostrado um fator complicador para o desenvolvimento de outras competências.

Felizmente, há aquelas escolas que tentam retomar ou produzir propostas mais avançadas em termos de educação. São as que visam, além do conteúdo, acrescentar ao viver das crianças elementos que lhes darão subsídios emocionais para a vida futura.

Quais são esses elementos? A solidariedade, a atenção às atividades comunitárias, o coleguismo, o respeito às e pelas diferenças, etc. e outros tantos.

Ao lado dessas posições escolares, está presente a questão do aluno que apresenta menor rendimento escolar e que necessita temporariamente de um reforço.

Tenho uma amiga, professora experiente, que dá aulas particulares a vários alunos. Ela tem me falado sobre como tem encontrado os alunos que lhe chegam para um reforço escolar. Geralmente são encaminhados por professores ou coordenadores, que deixam a criança ciente de que ela está fracassando na aprendizagem e que deve responder adequadamente à exigência escolar.

Vale observar que, por aí, o fracasso já vem anunciado, ou seja: “Você não está dando conta como seus colegas. Você não estuda o suficiente, não presta atenção. Precisa de aula particular porque não está aprendendo. E se não aprender, vai tomar bomba”, etc.

Assim, a partir dessas falas, a criança tem chegado à aula de reforço com a autoestima em baixa, se achando burra, incompetente ou, no mínimo, aquém de seus colegas, que ele supõe mais inteligentes que ela.  

Acontece que não são essas ameaças, seja dos pais, seja da escola, que vão estimulá-la. Ela não tem como antecipar o resultado do esforço. Nem sabe como evitar que o pior aconteça.

A criança só pode viver o presente. E se tiver medo de um eventual fracasso, essas palavras do adulto só lhe demonstram a falta de confiança que têm nela. Mesmo que o adulto esteja querendo protegê-la da “bomba”, o que a criança vai supor, de fato, é o pessimismo do adulto quanto ao seu desempenho.

A psicanálise formaliza os elementos psíquicos que levam alguém a ser desejante de saber. É com uma curiosidade dirigida que a criança se descobre querendo saber. Freud já observava que a relação entre um professor e um aluno não está no valor das informações somente, mas no que ele chamou de “transferência” das relações primárias de afeto da criança ao mestre, que implicam admiração e respeito. São elas que estabelecem as condições para aprender.

Por causa disso, insistir nas falhas não é uma boa estratégia nem a levará a criança a querer aprender. Importante é enfatizar o que ela pode e deve fazer concretamente. Dizer-lhe que é preferível que tome algumas aulas particulares na(s) matéria(s) em que está mais fraca, pois assim o professor vai poder estimulá-la a trabalhar com gosto, para que descubra o prazer de dominar a matéria. Mas principalmente para se sentir reconhecida em seus progressos no ensino do colégio.

Essas apostas pontuais são incentivos facilitadores que darão à criança e mesmo ao jovem uma melhor opinião de si mesmo, sem lhe abalar a autoestima e ao mesmo tempo tendo mais tolerância consigo mesma diante do olhar dos outros.

Então, esta não seria uma maneira de dizer ao aluno que os trabalhos escolares são importantes sim, mas que sua pessoa nessas tarefas é muito mais?

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