O sono da criança

Desde o nascimento do bebê, os pais se preocupam com a questão do sono da criança: – Será que vai dormir bem? Ou vai acordar a noite? Como assegurar um sono tranquilo?

Essas antecipações dos pais não são sem razão, pois, se a criança não dorme, os pais também não dormem… E assim, é conselho pra todo lado, ou mesmo, buscar nos livros de auto-ajuda maneiras de como controlar, treinar o sono, domesticá-lo, regrá-lo, na ilusão de que há formas infalíveis… Mas não há fórmulas infalíveis, e isso, em toda e qualquer idade.

– Como seria bom se pudéssemos controlar o sono e também os sonhos, sobretudo os pesadelos, não é? Mas eles são indomáveis! Ninguém consegue fazer uma criança dormir se ela não tem sono, nem consegue que ela permaneça acordada quando o sono a derruba.

– O que acontece? Um bebê, por exemplo, os pediatras recomendam de início respeitar o ritmo biológico. Nas alternâncias entre as horas de sono e da amamentação, a mãe vai aprendendo sobre o ritmo da criança. Na medida em que vai crescendo, ela vai ficando mais tempo desperta, mas isso não significa que vamos deixar a criança dormir e acordar quando ela bem entender.

Nenhuma criança vai querer dormir se não está com sono, mas podemos ir conduzindo a criança a algumas situações que favorecem o sono, como também fazê-la saber de outras situações que o impedem. Por exemplo, é importante que o ambiente em que a criança dorme não tenha muitos estímulos de luz ou sons intensos que possam fazê-la despertar. Podemos ir preparando a criança para dormir com uma cantiga de ninar, um carinho, um aconchego, ou contando uma história, de livro ou inventada. Isso é especialmente sensível para as crianças na primeira infância.

Algumas crianças, mesmo sonolentas, relutam a ir dormir no horário que os pais estabelecem. Pois são os pais, sim, que vão estabelecer o horário de ir para a cama. Entretanto, precisamos evitar os extremos, e há algumas questões a considerar: a primeira delas é que o sono da criança com menos de 5, 6 anos, é instável mesmo. Ela pode passar por um longo período em que dorme bem, e em seguida, por um período instável, quando acorda durante a noite, com o sono bastante interrompido e apresentar medos e pesadelos.

 Por que isso acontece? Este é um período da vida de novas e intensas descobertas, de desafios na socialização, novos ambientes, mas também das angústias, que é quando ela começa a se dar conta de que, ao se recolher, está tomando uma distância dos pais. Na primeira infância são comuns os medos de cachorro, palhaço, do escuro, de cair… enfim, de algo que ela possa dar nome, e nomeando, ela possa evitar.

 Afinal, o que é medo? É um estado afetivo, provocado pela percepção de um perigo. O medo é uma defesa positiva quando realmente há perigo real! Quando uma criança sente medo de cair, é provável que ela tome mais cuidado numa decida íngreme, por exemplo. Se ela não tem medo, sua chance de se machucar é maior. Por isso medo é uma defesa positiva.

 Já angústia, mesmo sem um perigo real, é a impressão de que algo muito desagradável vai acontecer, é mais difusa, digamos, um medo imaginário. Mas apesar disso ele é bem real para quem sente e os pais não devem fazer pouco caso da situação.

 – O que devemos fazer? Quanta atenção dar a isso? O melhor é buscar um equilíbrio entre não dar atenção ou dar atenção excessiva. As angústias precisam se expressar, e muitas vezes, através dos medos e pesadelos, o sono se apresenta atribulado. Esses momentos vão requerer a presença e a palavra dos pais, ou pelo menos, de um deles. A função importante nesse momento é o adulto assegurar à criança que ela está protegida, que nada de mal vai lhe acontecer, assim como encorajá-la a enfrentar o medo. (Tem um bicho aqui, alguém está entrando aqui, essa sombra parece fantasma, loura do banheiro, etc…) Se a criança sente a proteção dos pais, vai tentar conseguir superar e vencer os medos.

Paciência e disponibilidade dos pais vão ajudar a criança a superar esse período de inseguranças que, na verdade, são medos de perda e separação. Ajudá-la a entender que está se recolhendo para descansar, para sonhar e para crescer. Mas ela deve ser informada de que os pais precisam estar sozinhos no espaço deles, e se acostumar que eles tenham momentos sem a sua presença. E os pais, eles mesmos, precisam consentir nisso primeiro…

– O que podemos fazer? Bem, uma vez estabelecidos os horários ( que podem ser flexibilizados dependendo da situação: fim de semana, aniversário, etc) criar algumas rotinas para a criança ir se preparando para dormir. Aí, cada família é que vai escolher como será essa preparação, desde que um adulto vá acompanhando esse fazer da criança até que ela consiga fazê-lo sozinha. Por exemplo: colocar pijama, escovar os dentes, fazer xixi, como também pegar um livro e esperar a mamãe para contar história, um bichinho por companhia, ascender uma luzinha discreta, enfim, essas coisas comuns mesmo a serem introduzidas para acalmar e preparar a hora de dormir.

– Mas e aí, vocês vão me perguntar: e se a criança acorda e vai para a cama dos pais? O desejável é que ela seja levada de volta à cama dela, se necessário, que um dos pais fique ali com ela um pouquinho, mas sem dar muito papo. Isso, para que ela vá consentindo em ficar no quarto sem a presença obrigatória dos pais.

É assim que o dormir, para além de sua função neurofisiológica, vai depender de uma regulação dos adultos que estão no entorno da criança. Essa regulação não somente ensina, mas também dá segurança e acalma. A qualidade do sono tem a ver com a diminuição das excitações externas, separando os períodos da atividade dos de repouso.

 Pais costumam perguntar se desenhos e programas violentos incentivam medos e pesadelos.Para as crianças na primeira infância, melhor evitar estímulos violentos, para os quais ela ainda não está aparelhada para responder. E uma forma de assegurar proteção ao transbordamento das emoções.

 Para as crianças mais velhas, 7,8, 9 anos, essa é uma questão controvertida, pois alguns especialistas dizem que sim, que influenciam no sono, mas outros dizem que pode ser um veículo pelo qual a criança descarrega sua agressividade, aproveitando-se de um modo ficcional, assim como nas brincadeiras agressivas que eles inventam. Nesse tempo a criança já está mais apta a lidar com isso que ela sente e vê acontecer no mundo.

Enfim, se eles poderiam provocar ou não medos na criança, os pais podem estar atentos e observar os efeitos específicos em seu filho. Quando ele assiste a algum desenho que parece aos pais mais violento, ou a alguma cena que lhes parece inadequada, talvez uma pergunta de como ele entendeu o que viu ( ou o que ouviu) possa ser uma boa estratégia para avaliar como será sua reação.

As crianças maiores de 8 anos costumam ter medo da morte, principalmente a dos pais. Em geral, é nessa idade que se deparam com a morte real, por isso o medo. Medo de fracassar nas provas tem sido frequente por volta desse tempo.

Medos e pesadelos são também frequentes na época da pré-adolescência, por volta dos 9, 10 anos de idade. Coincide com o final da infância e a adolescência batendo à porta. Nesse período, medos e pesadelos podem estar relacionados com o medo de deixar a infância e ir começando a assumir seus passos. Nesse período, ao invés do adulto contar história, melhor pedir à criança que ela nos conte uma inventada, ou um caso acontecido. Essa troca entre a criança e seus pais é uma aproximação interessante para estabelecer um diálogo. Mas depois disso, Boa Noite!

Agora, um assunto muito atual: espera-se que uma criança de até 7, 8 anos, não tenha celular. Isso é o recomendado, mas sabemos que crianças tem sido introduzidas aos tablets e eletrônicos muito mais cedo, e por seus pais. Assim, esse acesso nunca deve ser permitido no quarto da criança, sobretudo antes de dormir, pois incentiva seu uso permanente, sem pausas, com prejuízo do sono.  E se uma criança dorme mal, acorda muitas vezes durante a noite ela se torna vulnerável, pois o sono é um doa indicadores mais sensíveis das questões emocionais.

 Por último, uma pequena lembrança aos pais: mesmo sem se dar conta disso, eles podem estar colaborando com a dificuldade da criança de dormir bem. Por isso, é sempre bom rever as próprias atitudes diante de um filho com o sono conturbado.

E nos casos em que os medos permaneçam, ou se intensifiquem, uma ajuda profissional está indicada para apurar com cuidado o que está se passando com a criança. Pois aí vai ser importante uma escuta para distinguir o medo passageiro de uma fobia se estruturando, e poder acompanhar a criança nessa travessia.

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