Não há família ideal

Então, já foi dito que não é possível a uma criança se construir sozinha, fora de um contexto familiar. Mas é preciso dizer que tomamos a família, aqui, é pensada como um invólucro que fornece alguns elementos fundamentais á construção da criança. Ou seja, uma rede de laços que dá suporte e se responsabiliza pela criança. Lugar onde circulam os afetos e as interdições, os limites. Estas são as marcas que ficarão por toda a vida, são recursos para viver em sociedade, enfrentar as alegrias e as agruras da vida!

Nos anos 60/70, muito se falou sobre os ideais familiares: ora os especialistas se voltavam para os ideais comunitários, ora para a consagração da família monogâmica tradicional.( pai, mãe filho morando na mesma casa) Mas esses ditos em torno de ideais se revelaram falsos, aliás, como tudo que se baseia num ideal.

A família configura-se para abrigar duas funções fundamentais: materna e paterna. A família presta-se à transmissão de valores, de localização para a origem, nas gerações, etc.  E se estamos insistindo que não há ideal, quais seriam as condições favoráveis?

Que a criança possa ser acolhida e cuidada por um adultos desejante: isso significa uma atenção particularizada, dirigida a ela. E isso exige disponibilidade pessoal e tempo, mas também que esse adulto tenha contato com seus próprios limites. Ir se deixando aprender com essa vivência materna de cuidado e proteção, e principalmente sem exageros!! Falar com a criança, ouvi-la, para introduzi-la nas relações com o mundo. Num primeiro tempo quem costuma fazer isso é a mãe, mas mãe-função, e não necessariamente a mãe biológica. Importante e desejável poder contar com a função paterna, esse terceiro termo que se coloca interessando a mãe, e que vem assim regular esse amor materno em certa medida. É função do pai colocar um intervalo entre a mãe e o filho, ocupando esse lugar intermediário. Se o pai não está nessa configuração, que haja algo no desejo da mãe que possa substituir essa função.

Pois bem: o exercício dessas funções independe de que seja alguém de um sexo ou de outro sexo; homo ou hétero, separado ou não, mas que potencialmente possa oferecer à criança essa presença efetiva. Pois para a criança, o importante é que sua família lhe forneça o sentimento de PERTENCIMENTO:- seja em qualquer configuração possível. Isso vai possibilitar a sua vida em grupo.

Importante lembrar que, quando não há propriamente família, o que vemos são instituições tentando suprir essa função, como por exemplo, com as crianças abandonadas, que são recolhidas à creche. Essas instituições do estado, da Igreja ou caritativas pautam-se pelo modelo de alguma configuração familiar, mas com a perspectiva de que a criança venha a ser adotada.

Então: do ponto de vista da Psicanálise, a família tem essa função de resíduo, de resto a ser transmitido, e para colocar num contexto a história de cada um de nós.

– E não é mesmo esse o nosso compromisso com a criança? Pode-se dizer que uma família será digna e respeitável se puder ser um lugar onde cada um possa encontrar seu espaço. Questionar os ideais é uma maneira descente de afirmar que a criança não subsiste sozinha. É no laço familiar e social que ela vai construir sua singularidade, primeiro, para mais tarde, poder fazer algo pelo coletivo.

BLOG ESPAÇO PALAVRA – Direitos Reservados

www.espacopalavra.blog.br
contato@espacopalavra.blog.br
@2017 Todos os direitos reservados. Administrado por Acesso Publicidade.
  Contato