Fragmento do Artigo
Mães também choram

…Refiro-me ao sofrimento da mãe que, por ocasião da gravidez, do parto, ou pós-parto, rejeita o filho. Essa rejeição causa constrangimento nos parentes, amigos e, por vezes, até mesmo nos profissionais envolvidos, que não conseguem lidar com a imparcialidade e tolerância em tais circunstâncias. Nos tempos atuais, com todos os recursos da tecnologia e avanços da medicina, quando a mãe nem sente mais a dor do parto, para muitos se torna incompreensível que ela possa manifestar outras dores. Quando ela age desta forma, nessa hora, é visto como inviável, ficando velado o que a leva a assim comportar-se, ou seja, o que a leva a não conseguir com – portar o que irrompe psiquicamente.

Em outras palavras, em face da incredulidade e do horror ao ato, negligencia-se e não se escuta o choro da mãe. E, mães também choram!

Considerando que a criança está á espera de cuidados, dependente do Outro para sobreviver física e psiquicamente, assistir ao desamparo de uma criança toca mais fundo que o desamparo de um adulto, quando,então, o olhar é dirigido para aquele, equivocadamente, o único frágil, a criança. O desamparo é uma condição psíquica, que não se mede pelo tamanho, nem pelo grito emitido do ser em questão. Por vezes, o desamparo da mãe é silencioso e guarda um grave sofrimento numa aparência defensiva de desprezo, arrogância e independência. Mas, certamente, surpreende a decidida recusa de uma mãe de se colocar na posição do filho e ceder ás suas demandas. A mãe não se reconhece nessa criança, que não pode, por sua vez, reconhecer-se nela. Sua história precede de muito aquele momento. No seu enredo fantasmático,há um papel atribuído a ela e á criança.

Assim, a gravidez e o nascimento de um filho remetem a mãe a particulares vivências internas, de acordo com sua história e estrutura psíquica, que se manifestam, portanto, dentro de diferentes graus de gravidade. Acompanhamos, portanto, desde o “baby blues”, estado depressivo puerperal passageiro, até uma depressão ou transtornos graves.

 

Como assinala Catherine Mathelin, pensar que existiria um amor materno sem ambivalência, sem violência, sem ódio, seria tão radical quanto negar a existência do inconsciente. Essa pontuação me faz lembrar a cantiga popular, quando a mãe, simbolicamente, demanda que seu filho e todos os seres suportem sua ambivalência e sua cara feia:

“Boi, boi,boi

Boi da cara preta

Pega esse menino

Que tem medo de careta”.

Em geral, a mãe considera que tem de ser capaz de tolerar seu ódio pelo filho, sem fazer nada acerca do assunto, nem mesmo buscar ajuda. Nossa cultura incentiva o mito de que a mãe tem de amar o filho incondicionalmente. Com essa pressão e consequente proibição de sentir algo que disso possa diferir, quando a mãe não elabora essa fantasia de harmonia total, está alienada a um ideal aprisionador. E o que não aparece no simbólico, vai aparecer no real.

Inequívoco é que, quando há dificuldades iniciais de aproximação bebê/mãe, denunciadas pelo sofrimento materno nem sempre expresso claramente, ali uma problemática está anunciada, e é necessária uma atenção.

Referência:   Mães também choram – de Rosely Gazire Melgaço – publicado na Revista Epistemo- Somática da Clínica de Psicologia e Psicanálise do Hospital Mater Dei

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