Estamos encurtando a Infância?

O conceito de criança como um ser em construção, um ser que precisa de atenção e cuidados especiais, surgiu depois da Revolução Industrial. Antes disso, as crianças eram consideradas pequenos adultos, não tinham lugar na sociedade, eram mais um estorvo, um ser improdutivo. E se esperava que crescessem logo.

A ideia de criança que temos hoje é produto da modernidade. Com o progresso das sociedades modernas, a criança passa a ter destaque na família. A infância passa a ser considerada uma etapa fundamental da vida, em que a criança vai se constituindo, se apropria da linguagem, adquire conhecimentos e valores de forma acelerada e aprende a se relacionar e perceber os próprios sentimentos, bem como os de seus semelhantes.

Pais e educadores passaram a ter consciência da importância da infância na formação do humano. E de suas diferenças em relação à idade adulta. Vemos, assim, que, no decorrer da história, a criança vem ocupando diferentes posições, tanto nas expectativas dos pais quanto frente à sociedade.

A colega Heloisa Godoy nos lembra que Freud fez uma observação sobre isso: “[…] o nascimento de uma criança nunca corresponde exatamente ao que os pais esperam dela, pois o que eles esperam dela é a perfeição”. E aí eles vão tendo que perceber que ideais são ideais e, como tais, impossíveis de realizar.

Já se disse muito sobre isso, mas até hoje nós, psicanalistas, nos debruçamos sobre os efeitos do tempo da infância na vida futura de cada um de nós. Nos últimos cinquenta anos a infância vem sofrendo mudanças em vários níveis. Do ponto de vista biológico, constata-se que vem ocorrendo uma antecipação da adolescência ao lado de uma aceleração da maturação biológica.

No começo do século XX, não tão longe, a menina menstruava pela primeira vez por volta dos 14 anos. Hoje, por volta de 12 anos ou até menos, alterando a tendência de a menstruação chegar para a menina na mesma idade em que sua mãe havia menstruado. Os especialistas atribuem essa antecipação biológica à melhoria na nutrição, aos progressos da medicina na prevenção de moléstias e à diminuição do trabalho infantil.

Há outras mudanças da maior importância, que estariam relacionadas aos estímulos psíquicos e sociais, esses que resultam do meio em que vivemos. Alguns agentes transformadores são sugeridos, tais como TV, as novas estruturas familiares e, a partir da década passada, as mídias se tornando cada vez mais populares. Por meio delas se tem acesso a todo tipo de informação.

E as crianças estão muito expostas a isso, além de a outros fatores que o contexto atual produz. Tanto é que elas vêm trocando os brinquedos por temas do mundo adulto. Aquele período da meninice, entre 7 e 10 anos parece em extinção. As meninas de 9 anos têm vergonha de brincar de boneca e, se brincam, é escondido.

Também é fato que as crianças estão começando a ter obrigações cedo demais. Têm agenda lotada para acompanhar os “compromissos” do dia. Além disso, estão deixando de se identificar como crianças para se nomear “pré-adolescentes”. No ensino escolar, cada vez mais se antecipam os incentivos a competir no mundo.

 Será que as fronteiras entre adulto e criança estão caindo? É provável que não. Mas o ideal romântico da infância não cabe mais neste mundo, onde se entra em contato muito cedo com a violência e onde as transformações tecnológicas são irreversíveis. Isso faz com que tenhamos que aprender a lidar com essa “nova” infância.

Ainda não sabemos ao certo o que fazer diante disso. E nos preocupamos. Mas não temos como desconhecer as mudanças sociais e precisamos direcioná-las da melhor forma possível. Essa é a realidade atual.

Algumas coisas não podem mudar, por exemplo, a responsabilidade do adulto para com a criança. Não deixar de assegurar à criança seu espaço, nem a singularidade de seu momento de vida. Ajudá-la a sustentar seu lugar de criança, considerando que o tempo para brincar é fundamental para elaborar as experiências vividas. Manter a convivência com outras crianças para além da convivência escolar.

E não pode ser só no computador: elas precisam de atividades que coloquem seu corpo em movimento, como correr, pular. O mundo infantil não pode ficar confinado a espaços fechados. E é importante fazer com que elas entendam o limite do público e do privado. Estamos nos referindo aqui às mídias e às redes sociais.

 

E como não há hoje tanta disponibilidade de familiares que possam compartilhar com os pais o dia a dia da criança, o tempo de ficar com os pais requer que eles estejam atentos a essas necessidades da criança.

A criança precisa de atenção, de carinho, de brincadeiras e de ócio. Antecipar os ciclos da vida, pular etapas tem um custo. Os buracos na formação aparecem mais tarde.

 

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