Como falar da morte com a criança?

Os adultos têm dificuldade de tocar neste tema com a criança. Vale fantasiar para a criança? É preciso esconder que a morte é tão dolorosa e triste? Devemos esperar a criança perguntar o que está acontecendo? E a abordagem muda dependendo da idade?

Conversar sobre a morte com uma criança é uma tarefa delicada e difícil. Ficamos tentados a evitar e a pensar por que incomodá-la tão cedo com esse assunto.

Mas acontece que, desde muito cedo, a própria criança se sente tocada com a possibilidade de perder o que se ama, e isso inclui algo em torno da morte. E ela nos traz questões. Às vezes não diretamente, mas nos dando a entender, por suas perguntas, que ela percebe o grande mistério da existência: De onde eu vim? Pra onde eu vou? São tantos por quês!

Nas sociedades ocidentais, costumamos esconder a morte tentando retirá-la do campo dos vivos. Mas isso provoca mais curiosidade ainda na criança e até mesmo sua angústia.

Por outro lado, o tempo todo o cotidiano nos dá exemplos de que a morte existe. São informações na TV, luto de pessoas próximas e conversas veladas em que a criança mais que desconfia. E se angustia! Então, é necessário responder às interrogações infantis.

Ainda que não tenhamos tantas palavras para dizer da morte, pois para nós, adultos, ela também é um mistério, é melhor falar do que omitir ou cochichar para a criança não ouvir. Porque o que não é dito é imaginado. E às vezes a imaginação torna o fato mais grave e dramático, provocando inquietação e culpa.

Em vez de evitar o assunto, podemos deixar que a criança expresse seus receios para assegurá-la com nossa proteção, dizendo: “Mas fique tranquila, que vou cuidar de você”.

Por exemplo, falar da morte de um bichinho é um bom recurso a ser empregado para tratar do assunto com suavidade. A morte faz parte da vida. Quando a morte acontece no círculo familiar, se essa noção já tiver chegado à criança anteriormente, e se isso já foi falado, ela terá mais condições de resistir ao choque emocional.

Quando isso ocorre próximo à criança, não importa em que idade, mas com adequação à idade que a criança tem, ela precisa estar integrada ao acontecimento, participar do luto e do trabalho de luto. Porque o luto é um trabalho de elaboração dessa separação permanente. E dura um tempo.

Alguns adultos pensam que se deve poupar a criança. Por exemplo, dizer “A vovó partiu para uma grande viagem”, pode dar a ideia de que a vovó vai voltar. Ou mesmo quando se diz “Seu padrinho vai dormir para sempre”, isso pode provocar problemas até em relação ao o sono.

Então, o modo de falar é importante sim. Não vamos levantar a bandeira da verdade total, nem da verdade dita de forma crua. Mas vamos fazer um contorno afetivo e cuidadoso na abordagem, sem distorcer o fato em si.

Vale como exemplo a história de Paulinho. Pensando que sua gatinha Cora tinha morrido, ele ficou com muito medo e, chorando, foi falar com sua mãe sobre isso. É uma história sobre a vida e a morte. Mas a gatinha só estava indisposta, e quando Paulinho viu que ela não tinha morrido, pegou Cora gritando que ela era invencível, que nunca iria morrer. Mas a mãe de Paulinho aproveitou para perguntar ao filho se ele realmente acreditava nisso, já que ninguém é invencível nem imortal e que as gatinhas não vivem mais que uns vinte anos. Surpreso, Paulinho pergunta à mãe se ela também vai morrer. “Sim”, responde sua mãe, “mas só quando você já for um homem de bigode, então serei uma velhinha cansada. Aí minha vida vai chegar ao fim.”

Bom, eis aí o assunto tratado com sinceridade e delicadeza! Mas ao final dessa história, Paulinho entendeu que, se tudo que é vivo morre, a vida deve ser vivida com alegria. E cada um sai para fazer suas coisas. Sem drama.

Vemos que há várias maneiras interessantes de abordar com a criança a questão da morte. Se o assunto aparece, como nessa história, pode-se perguntar: “E você já pensou alguma vez que algum bichinho seu tinha morrido?”. Ou então: “Algum amiguinho já teve um parente que morreu?” “Como seu amigo te contou esse acontecimento?” Ou ainda: “Você conversa com seus amigos sobre a morte? De que você tem medo quando pensa nesse assunto?” E por aí, vai.

Pois bem, a criança é assim mesmo quando nos dá os sinais de que essa questão a aflige. Na vida de cada um de nós há o momento de nos darmos conta de que a morte existe. E entender que, se tudo que é vivo morre, a vida é transitória. E isso não deixa de causar um certo susto. Sempre! Só que temos que lidar com isso da melhor forma possível.

A morte é um fenômeno da vida. A ideia de morte para os adultos é uma, e outra para a criança. Quanto menor a criança é o que está na frente dela existe, o que não está, sumiu. Nunca mais não existe, porque não há ainda essa ideia de tempo. Mais tarde, a criança vai tendo uma dimensão mais verdadeira sobre essa grande e permanente separação que é a morte.

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