A vida como ela é

Hoje vamos falar sobre dois pontos que circulam em torno de nossos filhos na escola. 1. Pensando na vida escolar em nossos dias; 2.  E na tão polêmica proposta da Escola sem Partido. – Como é que nós podemos entender isso?

O mundo vem passando por tantas transformações e num espaço relativamente curto de tempo…  Será que a relação da sociedade com o ensino, dos pais com a escola, onde seus filhos passam a maior parte do dia, – isso tudo está em crise?

Muitos ensinamentos estão sendo questionados e alguns deles revisados. E isso é bom, necessário para que os jovens estejam à altura de seu tempo. Mas quais são os ensinamentos mais importantes a se manter?

 Em primeiro lugar, aqueles relacionados a princípios e valores. O mais importante é o fator humano: dignidade, ética, ser justo e honesto, respeitando o outro em suas diferenças. As crianças não são somente os adultos de amanhã; são habitantes do presente. Isso vem de casa, da família, deve prosseguir na escola e se replicar na sociedade.

Na sociedade brasileira estamos hoje diante de um ambiente pleno de paixões exaltadas e polarizadas politicamente.  São atitudes que precisam ser contidas, pois são agressivas e desproporcionais.

Os pais tem tido dificuldades de apresentar aos filhos a vida como ela é. Ou eles sonham com um mundo perfeito, querendo poupar as crianças e jovens das incoerências que o tempo atual nos apresenta, então fazem vigorar o lado permissivo em demasia. O individualismo e a competição prevalecem: de quem está com a razão,  ou a imposição de uma única forma de pensar… não estão ajudando em nada para melhorar o mundo.

Esta é uma questão que vamos ter que enfrentar junto com eles. E não estaria na hora de repensarmos tudo isso? A importância do conhecimento, somado ao cooperativismo não precisaria ser resgatado aí como caminho do meio?  

César Bona, chamado Prêmio Nobel dos professores na Espanha(Zaragoza) assegura que cada criança é um universo e que todos são extraordinários, com um talento especial. Que é este o desafio dos mestres de hoje: com empatia e sensibilidade, descobrir o que cada um pode alcançar e abrir-lhe a porta.

 Para Bona, ser professor não significa encaixar os alunos num único e inflexível plano de estudos, e nesse sentido, cabe aos educadores  sobretudo motivar e estimular a criatividade para que o aluno tenha chance de aplicá-las num mundo melhor.  Vê-se que aí se prioriza a qualidade das relações humanas, e não unicamente a quantidade de informações.

 Lógico que, para que isso possa ocorrer é preciso haver confiança e respeito entre aluno e professor. Também entre os pais, a escola e os professores de seu filho.  O professor, assim como a família, não deixa de ser um exemplo para o aluno. Para o jovem, ele entra na série de suas identificações, e ao transmitir conhecimento, recoloca o papel de autoridade daquele que ensina. Veja bem: autoridade, e não autoritarismo! Na própria sociedade, quando a autoridade está em crise, lança mão do autoritarismo!

Dito isso, ponto 2: -Como pensar o movimento Escola sem Partido se afinal, todo conhecimento é socialmente construído, e nunca neutro ou isento de valores? Considerar que a educação deva estar acima de todos os governos e ideologias é justamente afirmar a função da escola como lugar privilegiado de debate livre das ideias. Não é  lugar para propaganda, proselitismo, ou censura. Aliás, já temos a Lei de Diretrizes e Bases que sustenta isso.  

No entanto, seria de total infelicidade uma lei que instaure a censura e impeça o professor de apresentar os conteúdos aos alunos sob o ponto de vista no qual ele acredita… -Como é possível (numa democracia) estimular os estudantes a denunciar seus professores? Ou estar de acordo com um ambiente escolar persecutório como modo de resolver conflitos?

Já se observa nos pais, nos alunos e professores os efeitos desses excessos propostos pelos projetos que transitam. Já se instaura um clima pesado e angustiante na escola. Escola é lugar de livre desenvolvimento do pensamento.  Que se fale sobre isso, que se discuta, mas do ponto de vista cultural, e não, jurídico. A saída é chegar ao consenso, e não vigiar e punir.

 Está claro que não somos favoráveis a uma doutrinação política nas escolas, seja ela qual for. Estamos num país desejavelmente democrático e laico. A escola não pode ser instrumento para uma luta ideológica entre partidos políticos, ditos do bem e do mal.

Mas posicionamentos fazem parte de cada um de nós, e professores são humanos! Será que o que se transmite não estará sempre atravessado pela nossa maneira de ser, de estar, de nossa visão de mundo? Desde que isso não seja colocado como verdade absoluta, pode ser uma bela abertura a debate e um verdadeiro exercício do espírito crítico a ser desenvolvido na escola.  

As famílias esperam da escola que deem continuidade aos seus valores, no entanto, um certo “desencaixe” pode ser essencial para propiciar ao aluno  conhecer outras maneiras de pensar. O debate, a troca de ideias, a conversa sob os diferentes pontos de vista podem ser abordados sem catequizar o aluno, e sim, ao contrário, abrir a possibilidade para que ele pense por si mesmo. E não é essa a real prioridade da vida?

Um ponto a ser sustentado é que não podemos apartar nossos filhos das vivências que nos circundam. E nem viver por eles. Abrir a porta, ensinar a entrar. Entrar na vida, como ela é.

Referências

Entrevista com César Bona: El Diário 06/11/2015- Report. de Eduardo Azumendi – Zaragoza, Espanha

Contardo Caligaris- “Escola realmente sem partido”. Folha de São Paulo, 08/11/2018 Ilustrada.

Revista Veja- 14/11/2018 : “ Meia-volta, volver”- Fernando Molica, Luisa Bustamante, Maria Clara Vieira.

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