A Instituição Familiar

Não é possível haver criança sozinha, fora do contexto de uma instituição familiar. Tomamos como “instituição” aquilo que institui, que dá forma ao entorno da criança, permitindo a instauração do sistema simbólico que é próprio do homem e da Cultura.  Diferentemente do animal, a criança não se constitui de forma instintiva, e precisa de quem a atenda em seu desamparo inicial. A família, com seu desejo particularizado pela criança, cumpre essa função.

A família contemporânea já não é mais, como em outros tempos, simplesmente a família biológica com pai, mãe, filhos.  Ela vem adquirindo várias conformações, mas de todo modo, subsiste como um contexto extremamente importante: aquele que dá as referências mais fundamentais ao ser humano. É a família que propicia as identificações, a simbolização, a lei, dá medida às impossibilidades e à realidade, aparelhando a criança para fazer face às várias situações da vida. Mas principalmente, é da família que vem certas palavras que nomeadas, fazem com que o sujeito possa se incluir numa descendência e se localizar nas gerações.

A multiplicidade de formas familiares, ao contrário do que o discurso conservador quer fazer crer, está longe de poder ser descrita como degradada. Mais do que dizer que a família está decadente, melhor observar que se trata de um deslocamento, e não de um declínio. A família mono-parental se desloca para a família de estrutura variada.

Quando não há propriamente família, o que vemos são instituições que vem substituir às funções da família. Por exemplo, as crianças que são abandonadas acabam por ser recolhidas a uma instituição, ficando a perspectiva de virem a ser adotadas por uma família. Em casos extremos, como os dos meninos de rua, há o bando que faz o entorno da criança: ou seja, mesmo uma instituição da rua se organiza aos moldes da família, ainda que de uma forma precária e discutível. Há ainda as instituições maternais, creches, jurídicas, religiosas, caritativas, etc., – todas elas tomando por modelo a instituição familiar.

Nos anos 60/70 muito se disse sobre a família. E muitos desses ditos se revelaram utópicos por comportarem a idéia de um ideal. Em 1969, Lacan escreve a uma colega analista Jenny Aubry (1), denunciando o fracasso das experiências em se criar as crianças de forma comunitária, atendidas em suas necessidades básicas, sem terem um desejo particular dirigido a cada uma delas. Era uma época de proliferação das comunidades hippies, naturalistas, da experiência nos kibutzim, como modelos possíveis de substituir à instituição familiar. Lacan alerta sobre seus riscos e chama a atenção para a função de resíduo que a família sustenta, ao manter através do laço conjugal, o que é passível de ser transmitido à criança e que serve para a evolução das sociedades.

Sabemos que os sistemas de parentesco se fazem de dois modos: pela filiação, onde os laços são de sangue; e por aliança (laços de casamento). O resíduo é isso que há de irredutível de uma transmissão familiar, e que depende da subjetividade de cada um que vai exercer a função de mãe e a de pai.

Quando a criança é compartilhada com alguém que a mãe ama, para ser fruto dessa relação, na maior parte dos casos um desejo singular, dirigido à criança se configura. Ao cuidar da criança, a mãe faz com que esses cuidados portem a marca desse interesse particularizado, mas isso só é possível porque a mãe pode reconhecer suas próprias faltas. É pela via da falta materna que a criança entra no desejo.  Quanto ao pai, é importante que ele seja o mediador da Lei, para que o desejo da mãe não esteja inteiramente dedicado à criança, e passe pelo pai.

Se Winnicott nos falava numa mãe “suficientemente boa”, Lacan faz questão de enfatizar que a mãe, precisa estar em conformidade com alguns limites em relação ao filho, e que ela não se permita um excesso de poder.

– Por que será que ele nos diz isso? Para nos lembrar de que não há mãe ideal, e para recomendar que ela não queira sê-lo. A mãe que pretende funcionar idealmente produz efeitos catastróficos. Esta recomendação de Lacan é tanto para a mãe, quanto para as instituições: que elas não funcionem em nome de um ideal. E dá o exemplo das utopias comunitárias.

-E o pai? O pai que se toma por um PAI, por um grande pai, aquele que tudo sabe, não tem dúvidas e sim teorias precisas, é conhecido na literatura psicanalítica como aquele da impostura paterna. Um pai impostor é a encarnação da pura Lei, não mediada pelo seu desejo pela mulher que é a mãe da criança.

Então, para o pai, não se trata de impostura, mas de postura. E a postura paterna é a sua função, que também comporta a falha e a imperfeição. É preferível que o pai tenha tantas responsabilidades e tarefas, que não tenha como se achar perfeito. Pois, a função de um pai não é absolutamente a mesma que a de uma mãe, ainda que os homens modernos façam, devido às circunstâncias, uma troca pela maternagem.

Justamente porque a causa de desejo de um pai não deve ser direcionada á criança, mas a uma mulher: esta sim, que causa o seu desejo, um desejo permitido ao pai, e do qual ele é responsável e que o torna respeitável perante seus filhos. Ao mesmo tempo, é esse laço de desejo de um homem e de uma mulher que permite a transmissão de um resíduo: daquilo que resta e que se transmite às gerações seguintes. Casamento ou ajuntamento, desde que exista o desejo: – é esta a conjugalidade que interessa.

Entretanto, essa questão da família homem/mulher/criança tem se apresentado na atualidade sob diversas formas.  O que não significa que casais de um mesmo sexo não possam sustentar as funções da mãe e do pai, pois função não tem a ver com sexo. Ambas as funções podem ser desempenhadas por aquele sujeito que se coloca nesse lugar e se dirija ao filho a partir dessa posição. Assim como nas famílias monoparentais, ou seja, crianças criadas somente pela mãe ou pelo pai, (ve que são em grande número) entram no sistema simbólico tranquilamente ao elegerem ambas as funções em seu entorno…

Então, recolocar em questão o ideal da instituição familiar é uma maneira decente de afirmar que o sujeito humano não subsiste sozinho: ele precisa de um entorno social. Mas antes, é preciso que a instituição familiar coloque as bases, os pilares para poder passar ao social. É no social onde ele vai poder colocar aí a sua singularidade e, com isso, fazer algo pelo coletivo.

 Uma família, não importando sua configuração, só será digna e respeitável na medida em que puder ser um lugar onde cada um de seus membros possa encontrar espaço para sua particularidade, e mais tarde, estendê-lo á sociedade.

Silvia Grebler Myssior

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

– Laurent, E.- “Instituição do fantasma, fantasmas da instituição”

                                Lês feuillets du Courtil 4- Abril, 1992

  • Lacan, J. – “Duas notas sobre a criança”- 1969
  • Idem – “Radiofonia”
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