Fragmento do artigo A adolescência em questão

Na adolescência, o sujeito tem sua estrutura chacoalhada pelas exigências sociais e mudanças corporais que fazem FUROS no seu saber, aflorando o mal-estar. O adolescente fica siderado, sem palavras, sai furando como a lagarta Caterpillar( The Hungry Caterpillar, Eric Carle). Enfrenta o paradoxo de queimar o que adorou e ao mesmo tempo sustentar, no que adorou, as leis ordenadoras da cultura. A lagarta fura, fura, fura, até que encontra a folhinha verde. É sobre as folhinhas verdes dos adolescentes que a psicanálise tem algo a dizer aos educadores. Folhinhas verdes que “alimentam” psiquicamente os adolescentes para que encontrem suas “casas” e no momento do “tá na hora”, façam um furinho e metamorfoseiem em “borboleta”.

A psicanálise vem cuidar do que não vai bem; não para desconhecê-lo ou tamponá-lo, mas para tratar! Tratar é colocar as cartas na mesa e não debaixo do pano. O que não vai bem com os adolescentes de hoje? A violência urbana está escancarada: um índio foi queimado por adolescentes (porque pensaram que fosse mendigo), em Belo Horizonte adolescentes nos sinais assaltam com cacos de vidro. As drogas se infiltram cada vez mais nos colégios de classe média. A Aids e a prostituição na adolescência têm aumentado.

Frente a tantas mudanças tecnológicas, oferecimentos maciços de informações, Internet, qual é a posição correta? A certeza dos educadores também foi quebrada?

A psicanálise não tem uma proposta única, ideal, que resolva todas essas questões. Ela trata os problemas um a um e não de uma maneira generalizada, não propondo um modelo a ser seguido.

Mas a psicanálise tem algo a dizer.

É muito importante que o educador não se horrorize frente ao adolescente, pois seu horror, seu estranhamento muitas vezes traduz desejos desconhecidos dos quais não quer saber. Em vez de horrorizar-se, fugir dele, ou simplesmente tentar regulamentá-lo, por que não olhar de frente cada acontecimento com o adolescente? Há muito que o educador pode fazer…

Foi dito neste texto que o homem não alcança a satisfação e felicidade completas, não há um objeto único que o satisfaça. Assim ele pode satisfazer-se pelas vias da violência, do amor, da arte ou do crime.

Os educadores podem auxiliar o adolescente abrindo para ele possibilidade de transformar a satisfação pela violência em satisfação na cultura oferecendo-lhe objetos dessa cultura – “as folhinhas verdes”.

Assim, um adolescente que vive pichando o patrimônio, brigando, batendo, poderá se interessar pela arte, pelo esporte, pela música, pela Internet, e elevar sua agressividade à dignidade de sua inserção na cultura. Esse é um caminho possível, que poderá possibilitar maior número de escolhas e de direcionamento do desejo do adolescente, o qual poderá ser realizado em atos de solidariedade e não obrigatoriamente de violência e morte.

O educador, ao encarar de frente cada adolescente, poderá criar novos caminhos. Mas, nem todas “folhinhas são verdes” e elas não estão prontas, “dando sopa por aí.” Ao educador então é exigido: Inventar!

 

Referência:

Fragmento do artigo A ADOLESCÊNCIA EM QUESTÃO

De Thereza Christina Bruzzi Curi – Publicado na Revista Griphos –número 16 – Publicação da Escola Freudiana de Belo Horizonte/ iepsi

www.espacopalavra.blog.br
contato@espacopalavra.blog.br
@2017 Todos os direitos reservados. Administrado por Acesso Publicidade.